As mulheres que já não sofremos por amor ainda somos poucas, mas somos cada vez mais. Não nos libertámos da dor nem encontrámos a fórmula para sermos felizes no amor, mas chamamo-nos assim porque já não nos sentimos condenadas a sofrer por amor: sabemos que o romântico é político e que outras formas de nos relacionarmos, de nos organizarmos e de nos amarmos são possíveis.
As mulheres que já não sofremos por amor estamos a fazer a revolução amorosa a partir dos feminismos: estamos a colocar sobre a mesa a importância de reinventar o amor romântico para sofrer menos e desfrutar mais do amor. As redes sociais e afetivas, as emoções e os cuidados estão no centro do nosso pensamento, dos nossos debates e das nossas lutas.
As feministas alcançámos muitas mudanças a nível legislativo e político, e estamos a despatriarcalizar tudo: a ciência, a educação, as religiões, a medicina, a filosofia, o jornalismo e a comunicação, o cinema, o teatro, a democracia, o desporto, as instituições, a família… mas ainda nos resta muito trabalho ao nível sexual, emocional e sentimental.
Embora há décadas lutemos para alcançar a autonomia económica, até há pouco tinha-se feito muito pouco pela autonomia emocional, e cada uma tinha de procurar individualmente as ferramentas para trabalhar a dependência sentimental e despatriarcalizar as suas emoções. Hoje, no entanto, estamos a trabalhar coletivamente na criação dessas ferramentas para a revolução dos afetos.
A nossa forma de amar é patriarcal porque aprendemos a amar segundo as normas, as crenças, os modelos, os costumes, os mitos, as tradições, a moral e a ética da cultura a que pertencemos. Cada cultura constrói a sua estrutura emocional e os seus padrões de relação a partir de uma ideologia concreta; por isso, a nossa forma de amar no Ocidente é patriarcal e capitalista.
As meninas e os meninos recebem mensagens opostas e aprendem a amar de forma diferente, de modo que, quando nos encontramos na idade adulta, torna-se impossível amar-nos bem. Os meninos aprendem a valorizar e a defender a sua liberdade e a sua autonomia; as meninas aprendem a renunciar a elas como prova do seu amor quando encontram parceiro. As meninas aprendem a colocar o amor no centro das suas vidas, enquanto os meninos aprendem que o amor e os afetos são “coisas de raparigas”. As meninas acreditam que para amar é preciso sofrer, passar mal, aguentar e esperar pelo milagre romântico; os meninos, pelo contrário, não renunciam nem se sacrificam por amor. As meninas aprendem a ser doces princesas; os meninos, a ser guerreiros violentos. Elas acreditam que a sua missão é dar vida; a deles é matar o inimigo. Enquanto elas se hipersensibilizam e desenham corações por todo o lado, eles mutilam-se emocionalmente para não sofrer e preparam-se para ganhar todas as batalhas.
Assim sendo, não é de estranhar que, quando nos juntamos para nos amar, o encontro seja um desastre. Nestas condições, é impossível construir uma relação baseada no respeito mútuo, no bom trato e na igualdade. É impossível desfrutar do amor numa estrutura de relação baseada na dominação e na submissão, e nas lutas de poder que nos retiram grande parte do nosso tempo e energia: as guerras românticas que sustentamos impedem-nos de desfrutar do amor e da vida.
Aprendemos a amar a partir da nossa experiência pessoal com a família e o meio mais próximo, mas também através dos relatos que mitificam o amor e idealizam determinados modelos de masculinidade e feminilidade. Mitificar o amor serve para que as mulheres, movidas pela paixão amorosa, interiorizem os valores do patriarcado, obedeçam aos mandatos de género e cumpram os seus papéis de mulher tradicional, moderna e pós-moderna ao mesmo tempo.
Estamos a desfrutar de um salto tecnológico impressionante que nos permite contar histórias em múltiplos formatos e suportes, mas o esquema narrativo das histórias continua a ser o mesmo: “Enquanto ele salva a humanidade, ela espera ser resgatada da pobreza, da exploração, de um cativeiro, de um feitiço ou de uma vida aborrecida. Quando ele termina a sua missão, vai buscá-la e leva-a para o palácio, onde ambos viverão felizes para sempre.”
Por causa destes contos, desde pequenas tornamo-nos dependentes da droga do amor romântico, e assim nos mantêm entretidas a sonhar com a nossa utopia romântica. Ao patriarcado convém que permaneçamos acorrentadas a esta ilusão, cada uma à procura de ser resgatada por um príncipe encantado. O milagre romântico isola-nos das outras: para o patriarcado não há nada mais perigoso do que mulheres unidas, alegres e empoderadas a trabalhar em equipa em busca do bem comum.
O romantismo patriarcal é um mecanismo de controlo social para dominar as mulheres sob a promessa de salvação e de um paraíso amoroso onde um dia seremos felizes. A monogamia, por exemplo, é um mito inventado exclusivamente para nós; eles sempre desfrutaram da diversidade sexual e amorosa e proibiram-nos de fazer o mesmo. No passado, as leis permitiam aos homens matar as suas esposas adúlteras. Hoje em dia, a infidelidade feminina continua a ser inaceitável, enquanto se desculpam as “aventuras” dos homens. As mulheres continuam a sacrificar-se, a renunciar, a aguentar e a sofrer “por amor”; continuam a trabalhar gratuitamente em casa e nos cuidados “por amor”; continuam a sonhar com a salvação pessoal através do amor.
O patriarcado continua vivo nos nossos corações e goza de excelente saúde; por isso, é tão importante falar das nossas emoções e relações em termos políticos. Do meu ponto de vista, o amor é uma arma muito poderosa para revolucionar o nosso mundo e transformá-lo de baixo para cima. Podemos libertá-lo de toda a sua carga patriarcal e expandi-lo para além do casal, em direção à comunidade. Podemos eliminar as hierarquias e as lutas de poder entre nós e construir as nossas relações com os outros a partir da ternura, da empatia, da generosidade, da solidariedade e do companheirismo.
Conseguem imaginar como seria o mundo se as mulheres, em vez de desperdiçar o nosso tempo no amor romântico, o dedicássemos à luta por uma sociedade mais livre e igualitária? Conseguem imaginar milhões de mulheres a trabalhar juntas na defesa da natureza e dos direitos humanos? Eu sonho com o dia em que o amor rompa a barreira do duo e se expanda para transformar toda a nossa forma de nos organizarmos e de nos relacionarmos.
Esse dia ainda está muito longe: as ideias evoluem rapidamente, e somos excelentes a imaginar novos modelos amorosos e novas formas de nos relacionarmos, mas as emoções evoluem lentamente ao longo das décadas, e não podemos mudar em duas semanas a nossa forma de sentir. São muitos os séculos de patriarcado que carregamos, e ainda não temos ferramentas para gerir as nossas emoções. Continuamos com a mesma maturidade emocional dos primeiros Homo sapiens: sentimos as emoções mais básicas (alegria, ira, tristeza, medo) de forma semelhante. A maior parte da humanidade resolve os seus conflitos com violência, porque não somos educados para enfrentar os tsunamis emocionais que nos invadem cada vez que sofremos e fazemos sofrer os outros. Nas escolas não nos ensinam a amar-nos bem, e custa muito aprender a relacionarmo-nos com amor connosco mesmas, com o nosso entorno e com as pessoas que amamos.
No entanto, estamos… a fazê-lo.











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