9 de enero de 2014

Amor romântico vs. igualdade de gênero: uma entrevista com Coral Herrera


Este post faz parte da nossa série sobre género e sexualidade na América Latina e Caraíbas [en], 
em colaboração com o Congresso Norte-americano sobre a América Latina [en] (NACLA, 
da sigla em inglês). Fique atento a mais artigos.

Ler Coral Herrera é como soprar uma rajada de ar fresco e optimismo na luta pelo respeito à diversidade. 
O seu blogue [es], os seus artigos, os seus livros [es] e as suas ideias são viagens ao fundo do que é 
considerado óbvio e normal. Coral interessa-se sobretudo pela igualdade de género e pelo efeito que
 os imaginários românticos têm na maneira como os homens e as mulheres se relacionam e se vêem a
 si mesmos.

Poderia também dizer-se que Coral Herrera pertence a uma nova geração de activistas que partem da
 luta pela igualdade de género mas que se recusam a ficar por aí. Os seus escritos analisam problemas
 estruturais nas sociedades ocidentais e identificam o desconforto que se expande para a vida íntima
 de homens e mulheres. A ideia é fazer uma desconstrução e uma crítica honesta das causas e 
consequências dos conceitos que são perpetuados e dos imaginários que defendemos sem sequer 
saber porquê.

Coral Herrera é uma grande entusiasta dos novos media e utiliza-os para partilhar uma grande parte do
 seu trabalho. Mas além de blogueira, Coral é também doutorada em Humanidades e Comunicação 
Audiovisual. Nascida em Espanha, mudou-se para a Costa Rica há alguns anos e trabalhou como
 professora e consultora para a UNESCO, para o Instituto Latino-americano das Nações Unidas
 para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente (ILANUD), para a Agência Espanhola de 
Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), a Universidade Sorbonne em Paris 
e a Universidade Carlos III em Madrid. A sua principal especialização é em matéria de género, 
e o seu ponto de partida o amor romântico. Assim, muito do trabalho que Coral Herrera tem 
publicado online está centrado na defesa da diversidade de amores [es], os mitos [es] e a
 dimensão política e colectiva do que entendemos por amor. Em Os mitos românticos [es], 
por exemplo, aborda as origens das imagens que temos sobre o amor e põe o dedo directamente
 na ferida:

Através do amor romântico, inoculando desejos alheios, o patriarcado aproveita para controlar 
os nossos corpos, para heterodirigir o nosso erotismo, para conseguir que assumamos os limites 
que tem a feminilidade e sonhemos com a chegada do Salvador (Jesus, o Príncipe Encantado…) 
que nos escolha como boas esposas e nos ofereça o trono do matrimónio.



Quanto às estruturas culturais dentro das quais ocorre este fenómeno, ela explica:

Na nossa cultura ocidental o amor está restringido, pelo menos no discurso cultural hegemónico. 
A homofobia é cultural, a transfobia é cultural, o racismo e o especismo são culturais. 
É na cultura que se gera o medo do outro, do diferente; nela se criam os mitos, as metas, 
as proibições, os preconceitos e as obrigações sociais.

A autora assinala também a importância das histórias que contamos a nós próprios. Parte do trabalho
 de Herrera serve para nos ajudar a perceber como certos imaginários, ideais e objectivos passam 
de geração em geração através de narrativas que também são sustentadas pelos círculos dominantes. 
Apesar disso, de acordo com muitos movimentos sociais, o que é construído numa direcção pode
 tomar um novo rumo:

O lógico seria transformar as histórias e contar outras novas, mudar os modelos idealizados que
 se tornaram obsoletos, construir heróis e heroínas de carne e osso, criar novos mitos que nos ajudem 
a construir sociedades mais justas, igualitárias, ecologistas, cultas e pacíficas. Encaminhar os nossos
 esforços para o bem comum, trabalhar para propor outras realidades, lutar para construi
r outras novas [realidades] em vez de fugir do que existe com paraísos emocionais e promessas 
de salvação individuais.

Os livros estão facilmente disponíveis no seu blogue, onde Coral também partilha os seus artigos na
 imprensa e o seu canal no YouTube, onde se podem ver algumas das suas conferências e palestras
 académicas. O seu último livro, Bodas diversas y amores queer [es] (Casamentos diversos e amores
 queer) é “um livro a meio caminho entre o ensaio e o relato, em que se misturam reflexões teóricas,
 episódios pessoais, histórias de vida e algumas análises de ritos nupciais românticos alternativos.”


Porque é que as pessoas se casam tanto? Porque é que existem pessoas que só se casam 
uma vez e outras sete vezes? (…) Porque é que toda a gente pergunta por um bebé mas
 é mal visto que uma noiva esteja grávida? Porque fazemos vídeos românticos dos nossos 
casamentos e torturamos os nossos parentes durante meses? Porque é que as mulheres
 investem tantos esforços na procura de um parceiro? (…) Porque não se podem casar 
três pessoas que se amam e convivem juntas? Porque nos emocionamos quando nos pedem
 em casamento? Porque desejamos tanto que isso aconteça? Porque é que as pessoas
 aguentam infernos conjugais durante tantos anos? Porque é que há pessoas que nunca 
se casam? Como são as bodas de outras culturas? O que se segue às bodas?…

Para propor uma reflexão mais aprofundada sobre a luta pela igualdade de género na Internet, 
apresentaremos o trabalho de Coral Herrera em duas partes. Encerramos esta parte com a 
primeira metade de uma discussão “em linha” que tivemos com Coral, em que falámos 
sobre o papel dos novos meios de comunicação na luta pela igualdade de género
 e as lutas que tomam forma graças às novas tecnologias.

Global Voices: Como podem os novos media desafiar os velhos no que respeita a
 construção de mitos românticos? Como podem os novos media encaixar-se no mesmo papel
 dos tradicionais?

Coral Herrera: Os meios de comunicação tradicionais estão ainda presos a padrões tradicionais e a
 uma visão do mundo totalmente patriarcal e capitalista, continuam a vender-nos ideologia hegemónica
 em forma de entretenimento. A publicidade e a cultura de massas transmitem valores totalmente 
egoístas, individualistas, baseados no medo e na insatisfação permanente desta era do consumo.
Por isso creio que uma das melhores coisas que nos aconteceu nestes últimos anos foi a internet.
O que não é tão claro é que possamos viver disso, porque nos acostumámos a que seja tudo grátis. 
Eu mesma não posso apoiar economicamente as pessoas que leio devido à minha situação de
 precariedade em Espanha, antes de mais, e depois como emigrante na Costa Rica, embora pague
 à companhia telefónica para estar ligada e poder aceder a todos os conteúdos.

E apesar de achar que ainda não encontrámos a forma de obter rendimento (embora existam casos 
de pessoas que vivam disto), creio que a crise que estamos a viver nos está a tornar mais conscientes 
do que consumimos, de onde vem o que consumimos, e em que condições está a ser produzido. 
O consumo de cultura é agora (e será cada vez mais) um acto político, uma demonstração de apoio
 aos artistas e pensadores que nos oferecem histórias em todos os formatos e suportes possíveis.

A internet tem sido vantajosa para a cultura em geral porque agora temos acesso a coreografias, 
esculturas, filmes, reportagens noticiosas, criações em vídeo, canções, novelas, ensaios, contos, 
curtas-metragens, artigos académicos, fotografias… Nós criadores e criadoras temos mais liberdade
 no momento de inovar e oferecer outros modelos, outras heroínas, outras situações, outras formas de
 nos relacionarmos. Definitivamente creio que estamos a romper com as velhas estruturas narrativas
 que nos reduziam a conflitos simplificados.

GV: O que significam as novas tecnologias para a luta pela igualdade de género?
CH: Graças à Internet, todos somos emissores. [Isto torna-nos] menos vulneráveis à construção da 
realidade que os de cima nos impõem, porque podemos desmentir as suas afirmações, porque podemos
 tornar visível tudo aquilo que permanece oculto para que tudo continue como está.
É verdade que temos que assumir que a privacidade é inexistente, que nos vigiam, que vendem os 
nossos dados e nos censuram, mas penso que é preciso estar na rede de todas as maneiras.

GV: Que vantagens vê no uso de novas tecnologias para o debate sobre questões de género 
(especialmente na América Latina)?

CH: Bem, eu estou muito optimista. Apesar do fosso digital que nos separa, penso que estamos
 a criar redes de informação e de reflexão colectiva muito importantes. Estas redes 
permitem-nos apoiar-nos umas às outras, visualizar as problemáticas, reunir assinaturas para ter
 impacto político, organizar acções no mundo real que tenham eco no mundo virtual. Podemos unir 
sinergias, partilhar ideias, copiar modelos que funcionam em outros países e adaptá-los à nossa
 realidade local, podemos ensinar-nos umas às outras, podemos contribuir para a construção 
colectiva de conhecimento, e podemos modificar as agendas políticas graças ao eco das
 acções nas redes sociais.

Na próxima parte, a publicar, discutiremos com Coral a evolução da luta pela igualdade de género. 
Até lá, recomendamos a consulta do projecto editorial Haika[es], gerido pela autora, 
de onde podem ser retirados muitos dos seus trabalhos.

Escrito por Laura Vidal / Traduzido por Cristina Correia




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